
Na tentativa de destruir a identidade do povo timorense, a longa e violenta ocupação indonésia levou ao desaparecimento de uma grande parte do património físico, mas não a identidade do povo, o seu verdadeiro património.
No dia 10 de março, entre as 9h00 e as 13h00, realizou-se, na Biblioteca da Escola Portuguesa de Díli, uma atividade envolvendo alunos do 12.º ano, que tiveram a oportunidade de entrevistar personalidades marcantes da história e da vida pública timorense, durante a palestra “O Longo Caminho para a Liberdade”, que contou com a presença do ex-Presidente da República, Taur Matan Ruak, bem como do Dr. Vicente Soares Faria, do Dr. José Francisco da Silva Freitas Soares e de D. Pascoela Pereira, funcionária da escola. Esta palestra foi um momento de memória, reflexão e partilha sobre o percurso histórico de Timor-Leste, promovendo o diálogo entre gerações, com o intuito de entender a razão por detrás do desaparecimento de grande parte do património histórico. Quem andar pelas ruas de Díli, bem como pelas demais vilas e cidades de Timor-Leste, constatará, rapidamente, o reduzido número de edifícios antigos; foi a partir desta constatação que nos lembrámos de questionar o seu porquê? Ou seja: Porque é que em Timor-Leste, um país outrora colonizado por Portugal, e que foi sofrendo outras ocupações na sua história recente (ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial e indonésia, entre 1975-1999), não há uma grande variedade de edificações antigas? Sabemos que a presença japonesa, e para além de ter levado à morte mais de 40 mil timorenses, terá sido, de igual modo, responsável pela danificação de muito do património então existente. Dito isto, foi necessário, ainda, encontrar uma resposta mais cabal, até porque, se nos transportarmos para outras realidades coloniais portuguesas, sabemos que aí é possível encontrar um grande número de vestígios da duradoura presença lusa; sobretudo aquelas em que a presença colonial teve uma duração similar à timorense, como Angola, Moçambique, Cabo-Verde ou São Tomé e Príncipe, de onde a potência europeia sairia, em definitivo, e tal como em Timor-Leste, no ano de 1975. Há, ainda, o paradigmático caso de Macau, colónia portuguesa até 1999, e que contou, tal como Timor, com uma reduzida presença, tanto em número de colonos, como em investimento económico devido, sobretudo, à sua grande distância de Portugal, e que tem, até hoje, imenso património dessa época. A presença portuguesa em Timor-Leste remonta ao século XVI, quando foram estabelecidos os primeiros contactos na região, dando início a um longo período de colonização. Ao longo de mais de quatro séculos, Portugal deixou marcas profundas na cultura, na língua e nas instituições timorenses, visíveis ainda hoje no uso do português como língua oficial e na forte influência do catolicismo. No entanto, onde está o património físico que comprove todos esses séculos de ocupação? Assim, e de forma a responder a esta questão, os alunos começaram por elencar alguns dos edifícios ou estruturas que chegaram aos dias de hoje: seja o Monumento de Lifau e as ruínas de Fatu-Suba (antiga fortaleza e prisão) no enclave de Oecusse, seja o antigo Forte Militar de Balibó, ou a Prisão de Aipelo, em Liquiçá, as pousadas de Maubisse e Baucau, o Palácio de Lahane, o Palácio do Governo (antigo palácio do governador), a Casa Europa, a Igreja de Santo António de Motael e o antigo Mercado Municipal, em Díli; para além destas edificações há, ainda, alguns monumentos coloniais comemorativos de datas relevantes, como aquele que está em frente ao Palácio do Governo, construído em 1960 para comemorar o quinto centenário da morte do Infante D. Henrique e que simboliza a presença portuguesa em Timor-Leste. Feito esse levantamento, e mesmo sabendo que havia pouco investimento, por parte de Portugal, e que Timor era mantido mais como um símbolo da narrativa de um Portugal pluricontinental que servia para acalentar o ego de um regime que se ia desmoronando, do que como uma colónia efetiva, os alunos não estavam ainda convencidos de que esse facto, por si só, justificasse a existência diminuta de património físico histórico. Foi nesse contexto que se organizou a referida palestra, com a participação de protagonistas da história recente do país — quem melhor do que estas figuras para explicar a escassez de construções antigas em Timor-Leste? Nesse sentido, quando questionado sobre como era nascer numa colónia, Taur Matan Ruak afirmou que a Díli do final da década de 1950 e dos anos 60 em nada se compara com a atual: “Nessa altura, Díli tinha apenas cerca de 15 mil habitantes e era uma cidade constituída por campos, por todo o lado, não era como hoje, que é uma cidade grande e com mais de 300 mil habitantes.”. Esta imagem que é dada da cidade ajuda a compreender, antes de mais, a diferença de dimensão entre a cidade que hoje se conhece e a cidade deixada pela colonização portuguesa; se a cidade era infinitamente mais pequena, então já começa a parecer mais normal que a herança patrimonial devesse ser adequada e pensada para uma cidade de 15 mil habitantes e não para uma cidade de mais de 300 mil. Em 1975, quando em Portugal se vivia o período quente da revolução, em Timor estalava uma curta, mas sangrenta guerra civil, que opôs diferentes forças políticas que então surgiram; nesta altura, o pai de José Francisco Soares foi morto pelas FALINTIL. Taur Matan Ruak, em nome dessa força militar, pediu desculpa, sendo esse um dos momentos de maior comoção da palestra e revelador da força anímica deste povo que ainda hoje está em processo de reconciliação. A palestra prosseguiu com novas informações sobre o período que se seguiu a 1975, após a saída definitiva dos portugueses de Timor-Leste. A 7 de dezembro de 1975, a Indonésia invadiu o território, dando início a uma ocupação violenta que se prolongou por mais de duas décadas. Taur Matan Ruak, bem como o académico e antigo deputado Vicente Soares Faria, partiram para as montanhas, local privilegiado escolhido pela resistência timorense: “Não tínhamos experiência de guerra, tivemos de ir para o mato. Não dava para fazer uma guerra com a Indonésia”, disse Vicente Soares Faria, que ficaria conhecido pelo nome de guerra “Funukolik”. A luta foi longa e dura, mas Taur Matan Ruak referiu que nunca, em situação alguma, pensou em desistir: “muitas pessoas tinham já perdido a vida pela causa independentista e, portanto, já não podiam voltar atrás, até porque “Resistir é vencer!”. Em novembro de 1991, após uma cerimónia na Igreja de Motael em memória de um estudante morto dias antes pelas forças ocupantes, teve lugar uma marcha pacífica nas ruas de Díli, durante a qual a população clamou pela independência. A manifestação terminou no cemitério de Santa Cruz, onde milhares de pessoas se reuniram para prestar homenagem a Sebastião Gomes, o estudante assassinado. As forças indonésias reagiram, massacrando o povo que ali se encontrava. A Dona Pascoela, funcionária da Escola Portuguesa de Díli, esteve presente em Santa Cruz e contou como viveu esse momento: “Quando os disparos começaram, o choque foi absoluto; foi tudo muito rápido e as pessoas entraram em pânico, começando a correr em todas as direções.” José Francisco Soares também esteve no cemitério na hora do massacre: “Eu não tive tempo de processar o que estava a acontecer, mas vi sangue por todo o lado e muitas pessoas no chão.”. Ambos choraram a morte de familiares e amigos, como acrescentou José Francisco Soares, que perdeu o irmão de 14 anos. Nos dias que se seguiram ao massacre, Díli era uma cidade silenciosa. As imagens deste dia percorreram o mundo, sensibilizando a opinião pública internacional para a causa timorense. Em 1999, o presidente da Indonésia declarou a intenção de realizar um referendo em Timor-Leste para averiguar se a população queria a independência, ou continuar integrada na Indonésia. Após este anúncio, as milícias pró-indonésia começaram a atuar em todo o país, realizando ataques que vitimaram centenas de civis. Apesar da escalada de violência e colocando a própria vida em risco, a população participou massivamente na votação a 30 de agosto de 1999. O histórico resultado foi esmagadoramente favorável aos independentistas, que obtiveram uma votação de 78,05% dos votos. Depois dos resultados terem sido divulgados no antigo Hotel Makhota (atual Hotel Timor), as milícias espalharam o terror pelo país, incendiando, em muitos locais, mais de 85% das suas edificações e, com isso, muito do seu património. Terminada a palestra e compreendidas as razões para a escassez de património edificado em Timor-Leste, ficou na sala a perceção de que estes heróis deixaram um país livre e independente, alcançado à custa de anos de sofrimento, sacrifício pessoal e da perda de inúmeros entes queridos. Concluiu-se ainda que a resiliência e a coragem constituem o verdadeiro património do povo timorense. Agora, cabe-nos a nós, filhos e netos da independência, construir o património para as gerações vindouras.
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